Benefícios fiscais para a classe média entraram em vigor nas folhas de pagamento de janeiro
Lula busca expandir o apoio além da sua base de baixa renda
Mercado de trabalho sólido, inflação em queda colocam Lula à frente nas pesquisas
BRASÍLIA, 11 de fevereiro (Reuters) - Um benefício fiscal para a classe média, que quase reduz pela metade o número de brasileiros que pagam imposto de renda, está contribuindo para os ventos favoráveis à economia que dão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma vantagem nas primeiras pesquisas de opinião, enquanto ele se prepara para concorrer à reeleição.
A medida, uma das promessas emblemáticas de sua campanha de 2022, reflete um esforço para ampliar o apoio do líder de esquerda além de sua base tradicional de baixa renda.
O boletim Reuters Inside Track é seu guia essencial para os maiores eventos do esporte mundial. Inscreva-se aqui.
Ela provavelmente dará mais impulso a uma economia que, embora não esteja em plena expansão, pelo menos ajuda os brasileiros a esticar seus salários. O desemprego está em níveis recordes, o salário médio atingiu um recorde e a inflação — especialmente de alimentos — diminuiu o suficiente para que as taxas de juros comecem a cair no próximo mês.
Isso ajudou a consolidar o apoio a Lula, que lidera os possíveis adversários por quatro a sete pontos percentuais em pesquisas recentes que simulam cenários de confronto direto para a eleição de outubro.
Para esse cenário mais favorável, soma-se a nova isenção do imposto de renda para salários mensais de até 5.000 reais (960 dólares) — mais de três vezes o salário mínimo do Brasil — a partir das deduções na folha de pagamento de janeiro.
O desemprego e a inflação melhoraram, mas o crescimento rápido dos gastos e as altas taxas de juros elevaram a dívida bruta como proporção do PIB.
PILATES, PLANOS DE VIAGEM
A profissional de publicidade Vitória Santos, de 30 anos, planeja gastar os 300 reais extras que acabaram de chegar em seu salário mensal em aulas de Pilates.
“É uma quantia significativa que realmente faz diferença”, disse Santos. “Para algumas pessoas, cobre a conta de luz do mês, a internet, ajuda a pagar planos de viagem ou uma assinatura de academia.”
Como a renda disponível extra deve chegar principalmente às famílias de baixa renda, que tendem a gastar mais do que poupar, segundo estatísticas, o governo espera que a medida injete cerca de 28 bilhões de reais (5,4 bilhões de dólares) na economia neste ano.
No entanto, muitos economistas são céticos quanto aos benefícios de longo prazo da política, argumentando que o Brasil deveria ampliar sua base tributária para lidar com a crescente dívida pública.
“É uma má política econômica, mas conquista votos”, disse Fabio Kanczuk, ex-diretor do banco central e atualmente chefe de macroeconomia na Asa Investments.
Ele questionou a sabedoria de um benefício fiscal para a classe média brasileira, que desvia recursos para o consumo que poderia ter impulsionado a produtividade econômica ou reduzido a desigualdade de forma mais eficaz.
Kanczuk afirmou que o estímulo provavelmente se converterá rapidamente em consumo, inclusive por meio da expansão do crédito, à medida que os bancos antecipam uma renda familiar mais forte. Estimou um aumento de 0,2 ponto percentual no crescimento econômico neste ano, com efeito semelhante na inflação.
BASE DE IMPOSTO QUE SE REDUZ
Cerca de 11,3 milhões dos 25,4 milhões de brasileiros que pagaram imposto de renda no ano passado, aproximadamente 44%, devem ter saído da lista, informou a Receita Federal à Reuters. Outros 5,7 milhões receberam reduções fiscais, pois os descontos foram estendidos para rendimentos de até 7.350 reais.
A redução da base de imposto de renda reforça o quanto a maior economia da América Latina depende de tributar o consumo de bens e serviços.
Ela também reflete a prioridade que Lula dá aos brasileiros mais abastados, após anos de gastos públicos direcionados principalmente aos pobres, incluindo transferências de renda, assistência a idosos e deficientes de baixa renda, subsídios para gás de cozinha e auxílio financeiro para estudantes do ensino médio. Nos últimos anos, a classe média mais favorecida passou a se alinhar fortemente com os opositores de Lula, à direita na política.
Segundo fontes do Ministério da Fazenda, o governo ajustou sua política para atingir famílias de renda média, como moradias subsidiadas para famílias que ganham até 12.000 reais por mês e compra de imóveis de até 500.000 reais.
O senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Lula, considerado seu principal adversário, sinalizou uma agenda econômica favorável a cortes de impostos e a um papel menor do Estado.
AUMENTO NOS GASTOS
Anteriormente, o Brasil concedia isenção do imposto de renda sobre salários mensais de até 3.036 reais, ou duas vezes o salário mínimo.
A reforma que entra em vigor este ano ampliou esse benefício. A isenção total agora se aplica a trabalhadores que ganham um pouco mais de três vezes o salário mínimo. Brasileiros que ganham até 4,5 vezes o salário mínimo receberam descontos parciais.
Esse limite superior inclui trabalhadores como Emerson Marinho, postalista de 51 anos, cujo desconto na última folha de pagamento caiu 110 reais.
“É um dinheiro extra que posso usar para comida”, disse Marinho. “Tenho dois filhos e isso representa duas semanas inteiras de compras de frutas e verduras em casa. Realmente faz diferença.”
Para compensar a perda de receita, o governo criou um imposto mínimo sobre rendimentos mensais acima de 50.000 reais e uma retenção de 10% sobre dividendos corporativos enviados ao exterior.
A mudança na carga tributária deve reduzir a desigualdade de renda no Brasil em 1,1%, segundo estudo da Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira na Câmara dos Deputados.
Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management e ex-secretário do Tesouro, alertou que políticas que estimulam o consumo e os gastos públicos fazem parte de um modelo de crescimento “insustentável”, que elevou as taxas de juros a um nível quase de 20 anos atrás.
Ele argumentou que o Brasil deveria, ao invés disso, reduzir sua dívida e incentivar investimentos de longo prazo, mas reconheceu que uma mudança abrupta na política é improvável antes das eleições de outubro.
“Nas eleições, geralmente há uma tendência a evitar receitas amargas que eventualmente serão necessárias”, afirmou.
(1 dólar = 5,21 reais)
Reportagem de Marcela Ayres
Edição de Brad Haynes e Rod Nickel
Nossos Padrões: Os Princípios de Confiança da Thomson Reuters.
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A isenção de imposto de renda aumenta os ventos favoráveis econômicos de Lula antes das eleições no Brasil
Resumo
Benefícios fiscais para a classe média entraram em vigor nas folhas de pagamento de janeiro
Lula busca expandir o apoio além da sua base de baixa renda
Mercado de trabalho sólido, inflação em queda colocam Lula à frente nas pesquisas
BRASÍLIA, 11 de fevereiro (Reuters) - Um benefício fiscal para a classe média, que quase reduz pela metade o número de brasileiros que pagam imposto de renda, está contribuindo para os ventos favoráveis à economia que dão ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma vantagem nas primeiras pesquisas de opinião, enquanto ele se prepara para concorrer à reeleição.
A medida, uma das promessas emblemáticas de sua campanha de 2022, reflete um esforço para ampliar o apoio do líder de esquerda além de sua base tradicional de baixa renda.
O boletim Reuters Inside Track é seu guia essencial para os maiores eventos do esporte mundial. Inscreva-se aqui.
Ela provavelmente dará mais impulso a uma economia que, embora não esteja em plena expansão, pelo menos ajuda os brasileiros a esticar seus salários. O desemprego está em níveis recordes, o salário médio atingiu um recorde e a inflação — especialmente de alimentos — diminuiu o suficiente para que as taxas de juros comecem a cair no próximo mês.
Isso ajudou a consolidar o apoio a Lula, que lidera os possíveis adversários por quatro a sete pontos percentuais em pesquisas recentes que simulam cenários de confronto direto para a eleição de outubro.
Para esse cenário mais favorável, soma-se a nova isenção do imposto de renda para salários mensais de até 5.000 reais (960 dólares) — mais de três vezes o salário mínimo do Brasil — a partir das deduções na folha de pagamento de janeiro.
O desemprego e a inflação melhoraram, mas o crescimento rápido dos gastos e as altas taxas de juros elevaram a dívida bruta como proporção do PIB.
PILATES, PLANOS DE VIAGEM
A profissional de publicidade Vitória Santos, de 30 anos, planeja gastar os 300 reais extras que acabaram de chegar em seu salário mensal em aulas de Pilates.
“É uma quantia significativa que realmente faz diferença”, disse Santos. “Para algumas pessoas, cobre a conta de luz do mês, a internet, ajuda a pagar planos de viagem ou uma assinatura de academia.”
Como a renda disponível extra deve chegar principalmente às famílias de baixa renda, que tendem a gastar mais do que poupar, segundo estatísticas, o governo espera que a medida injete cerca de 28 bilhões de reais (5,4 bilhões de dólares) na economia neste ano.
No entanto, muitos economistas são céticos quanto aos benefícios de longo prazo da política, argumentando que o Brasil deveria ampliar sua base tributária para lidar com a crescente dívida pública.
“É uma má política econômica, mas conquista votos”, disse Fabio Kanczuk, ex-diretor do banco central e atualmente chefe de macroeconomia na Asa Investments.
Ele questionou a sabedoria de um benefício fiscal para a classe média brasileira, que desvia recursos para o consumo que poderia ter impulsionado a produtividade econômica ou reduzido a desigualdade de forma mais eficaz.
Kanczuk afirmou que o estímulo provavelmente se converterá rapidamente em consumo, inclusive por meio da expansão do crédito, à medida que os bancos antecipam uma renda familiar mais forte. Estimou um aumento de 0,2 ponto percentual no crescimento econômico neste ano, com efeito semelhante na inflação.
BASE DE IMPOSTO QUE SE REDUZ
Cerca de 11,3 milhões dos 25,4 milhões de brasileiros que pagaram imposto de renda no ano passado, aproximadamente 44%, devem ter saído da lista, informou a Receita Federal à Reuters. Outros 5,7 milhões receberam reduções fiscais, pois os descontos foram estendidos para rendimentos de até 7.350 reais.
A redução da base de imposto de renda reforça o quanto a maior economia da América Latina depende de tributar o consumo de bens e serviços.
Ela também reflete a prioridade que Lula dá aos brasileiros mais abastados, após anos de gastos públicos direcionados principalmente aos pobres, incluindo transferências de renda, assistência a idosos e deficientes de baixa renda, subsídios para gás de cozinha e auxílio financeiro para estudantes do ensino médio. Nos últimos anos, a classe média mais favorecida passou a se alinhar fortemente com os opositores de Lula, à direita na política.
Segundo fontes do Ministério da Fazenda, o governo ajustou sua política para atingir famílias de renda média, como moradias subsidiadas para famílias que ganham até 12.000 reais por mês e compra de imóveis de até 500.000 reais.
O senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Lula, considerado seu principal adversário, sinalizou uma agenda econômica favorável a cortes de impostos e a um papel menor do Estado.
AUMENTO NOS GASTOS
Anteriormente, o Brasil concedia isenção do imposto de renda sobre salários mensais de até 3.036 reais, ou duas vezes o salário mínimo.
A reforma que entra em vigor este ano ampliou esse benefício. A isenção total agora se aplica a trabalhadores que ganham um pouco mais de três vezes o salário mínimo. Brasileiros que ganham até 4,5 vezes o salário mínimo receberam descontos parciais.
Esse limite superior inclui trabalhadores como Emerson Marinho, postalista de 51 anos, cujo desconto na última folha de pagamento caiu 110 reais.
“É um dinheiro extra que posso usar para comida”, disse Marinho. “Tenho dois filhos e isso representa duas semanas inteiras de compras de frutas e verduras em casa. Realmente faz diferença.”
Para compensar a perda de receita, o governo criou um imposto mínimo sobre rendimentos mensais acima de 50.000 reais e uma retenção de 10% sobre dividendos corporativos enviados ao exterior.
A mudança na carga tributária deve reduzir a desigualdade de renda no Brasil em 1,1%, segundo estudo da Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira na Câmara dos Deputados.
Bruno Funchal, CEO da Bradesco Asset Management e ex-secretário do Tesouro, alertou que políticas que estimulam o consumo e os gastos públicos fazem parte de um modelo de crescimento “insustentável”, que elevou as taxas de juros a um nível quase de 20 anos atrás.
Ele argumentou que o Brasil deveria, ao invés disso, reduzir sua dívida e incentivar investimentos de longo prazo, mas reconheceu que uma mudança abrupta na política é improvável antes das eleições de outubro.
“Nas eleições, geralmente há uma tendência a evitar receitas amargas que eventualmente serão necessárias”, afirmou.
(1 dólar = 5,21 reais)
Reportagem de Marcela Ayres Edição de Brad Haynes e Rod Nickel
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