A primeira visita ao estrangeiro do primeiro Papa americano é uma viagem à Turquia

ANKARA (AP) — O Papa Leão XIV chegou à Turquia na quinta-feira na sua primeira viagem ao estrangeiro, cumprindo os planos do Papa Francisco de marcar um importante aniversário cristão e transmitir uma mensagem de paz à região num momento crucial nos esforços para acabar com a guerra na Ucrânia e aliviar as tensões no Médio Oriente.

Leão foi recebido na pista do Aeroporto de Esenboga, em Ancara, por uma guarda de honra militar. Caminhando sobre um tapete turquesa, apertou a mão ao Ministro da Cultura e Turismo, Mehmet Nuri Ersoy, a outros oficiais e a altas figuras da igreja da Turquia.

Mais tarde, tinha uma reunião prevista com o Presidente Recep Tayyip Erdogan e um discurso ao corpo diplomático do país. Depois, deslocar-se-á na noite de quinta-feira para Istambul, onde participará durante três dias em encontros ecumênicos e inter-religiosos, seguidos pela etapa libanesa da sua viagem.

Falando com jornalistas a bordo do seu avião, Leão reconheceu a importância histórica da sua primeira viagem ao estrangeiro e afirmou que estava ansioso por ela devido ao que representa para os cristãos e para a paz no mundo.

Leão disse que sabe que a visita para comemorar um aniversário ecumênico importante foi significativa para os cristãos. Mas afirmou que esperava que a sua mensagem mais ampla de paz ressoasse mundialmente.

“Esperamos também anunciar, transmitir e proclamar o quão importante é a paz em todo o mundo. E convidar todas as pessoas a se unirem na busca por maior unidade, maior harmonia, e a procurar formas de que todos os homens e mulheres possam verdadeiramente ser irmãos e irmãs, apesar das diferenças, apesar de religiões diferentes, de crenças distintas.”

A visita de Leão ocorre num momento em que a Turquia, um país com mais de 85 milhões de habitantes, predominantemente muçulmanos sunnitas, tem vindo a posicionar-se como um intermediário chave nas negociações de paz pelos conflitos na Ucrânia e Gaza.

Ancara tem acolhido rodadas de negociações de baixo nível entre a Rússia e a Ucrânia e ofereceu-se para participar na força de estabilização em Gaza para ajudar a manter o frágil cessar-fogo, ações que Leão poderá aplaudir no seu discurso de chegada.

Reação na Turquia

O peso militar crescente da Turquia, como maior exército da NATO depois dos EUA, tem aproximado os líderes ocidentais de Erdogan, mesmo com críticos a alertar para a repressão do principal partido de oposição do país.

Embora o apoio aos palestinianos e o fim da guerra na Ucrânia sejam amplamente apoiados na Turquia, para os turcos que enfrentam uma crise contínua de custo de vida, devido à turbulência do mercado induzida por mudanças na política interna, a política internacional é uma preocupação secundária.

Isso pode explicar por que a visita de Leão passou relativamente despercebida por muitos na Turquia, pelo menos fora da pequena comunidade cristã do país.

“Não sabia que ele vinha. Ele é bem-vindo,” disse Sukran Celebi. “Seria bom se ele pedisse paz no mundo, mas não acho que isso vá mudar alguma coisa.”

Alguns disseram que pensam que a visita do primeiro papa americano da história tinha como objetivo promover os interesses dos Estados Unidos, ou talvez pressionar pela reabertura de um seminário ortodoxo grego que se tornou um ponto focal na luta por liberdades religiosas na Turquia.

“Se o papa está a visitar, isso significa que a América quer algo da Turquia,” afirmou Metin Erdem, proprietário de uma loja de instrumentos musicais no distrito turístico de Galata, em Istambul.

Aniversário histórico

O principal motivo para Leão viajar até à Turquia é marcar o 1700º aniversário do Concílio de Nicéia, o primeiro concílio ecumênico do cristianismo.

Leão irá rezar com o Patriarca Ecumênico Bartolomeu, líder espiritual dos cristãos ortodoxos do mundo, no local do encontro de 325 d.C. na atual İznik, no noroeste da Turquia, e assinará uma declaração conjunta como símbolo visível da unidade cristã.

As igrejas Oriental e Ocidental estiveram unidas até ao Grande Cisma de 1054, uma divisão precipitada principalmente por desacordos sobre a primazia do papa.

Embora a visita seja marcada para o importante aniversário católico-ortodoxo, ela também permitirá a Leão reforçar as relações da igreja com os muçulmanos. Leão deverá visitar a Mesquita Azul e presidir a uma reunião inter-religiosa em Istambul.

Asgın Tunca, um imam da Mesquita Azul que receberá o papa, afirmou que a visita ajudará a promover os laços cristão-muçulmanos e a dissipar preconceitos populares sobre o Islã.

“Queremos refletir essa imagem mostrando a beleza da nossa religião através da nossa hospitalidade — esse é o comando de Deus,” disse Tunca.

Liberdade religiosa na Turquia

Desde que chegou ao poder em 2002, o governo de Erdogan implementou reformas para melhorar os direitos dos grupos religiosos, incluindo a abertura de locais de culto e a devolução de propriedades confiscadas.

Ainda assim, alguns grupos cristãos enfrentam problemas legais e burocráticos ao tentar registrar igrejas, segundo um relatório do Departamento de Estado dos EUA sobre liberdades religiosas.

A Igreja Católica, que conta com cerca de 33.000 membros na Turquia, não possui reconhecimento legal formal no país “e isso é fonte de muitos problemas,” afirmou o padre Paolo Pugliese, superior dos frades capuchinos católicos na Turquia.

“Mas a Igreja Católica tem uma importância bastante notável porque temos um perfil internacional… e contamos com o apoio do papa,” acrescentou.

Tensões possíveis

Um dos momentos mais delicados da visita de Leão será no domingo, quando visitará a Catedral Apostólica Armênia em Istambul. A catedral recebeu todos os papas que visitaram a Turquia desde Paulo VI, com exceção de Francisco, que visitou o país em 2014 quando o patriarca estava doente.

Francisco visitou-o no hospital, e alguns meses depois causou grande irritação na Turquia ao declarar que o massacre dos armênios pelos turcos otomanos foi “o primeiro genocídio do século XX.” A Turquia, que há muito nega que um genocídio tenha ocorrido, recallou seu embaixador junto à Santa Sé em protesto.

Leão tem sido geralmente mais prudente do que Francisco em seus comentários públicos, e usar tais termos em solo turco poderia gerar um incidente diplomático. Mas o Vaticano também enfrenta um momento difícil nas suas relações com a Armênia, após suas iniciativas inter-religiosas com o Azerbaijão terem sido criticadas.

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