O Canadá enfrenta um momento crítico na sua indústria automotiva. Com as tarifas americanas a pressionar os fabricantes e a ameaça de que as operações sejam transferidas para o sul, o governo do primeiro-ministro Mark Carney tomou uma decisão audaz: abrir as portas do mercado automotivo canadense aos fabricantes chineses, mas com garantias que protejam os interesses nacionais. Em fevereiro passado, Carney reuniu-se com o presidente chinês Xi Jinping em Pequim e anunciou um acordo comercial que flexibilizou significativamente as tarifas sobre os veículos elétricos chineses, permitindo a entrada de aproximadamente 49 mil unidades com uma tarifa reduzida de 6 por cento.
Por que o Canadá precisava repensar a sua política automotiva?
A indústria automotiva no Canadá enfrenta pressões sem precedentes. No ano passado, foram vendidos 1,9 milhões de veículos novos no país, mas a participação de mercado das fábricas americanas diminuiu notavelmente desde que Trump lançou a sua guerra comercial. A General Motors fechou uma fábrica em Ontário e ameaçou reduzir operações noutra, enquanto a Stellantis cancelou planos para fabricar Jeep perto de Toronto, decidindo transferir essa produção para Illinois.
Atualmente, apenas cinco empresas mantêm fábricas de montagem no Canadá: GM, Stellantis, Ford Motor, Toyota e Honda. A maior parte da sua produção destina-se aos mercados americanos, tornando o Canadá vulnerável às políticas protecionistas de Washington. Fabricantes importantes como Tesla, Nissan e Kia nem sequer produzem território canadense, abastecendo-se completamente de fábricas nos Estados Unidos e outros países.
A ministra da Indústria, Melanie Joly, apresentou uma estratégia abrangente que visa travar a perda de empregos e atrair novos investimentos na manufatura. Esta política não só aborda o acesso ao mercado para produtores existentes, mas também contempla mandatos de venda de veículos elétricos e incentivos para consumidores, criando um ambiente mais favorável à inovação automotiva no país.
O acordo Carney-Xi: Oportunidade e restrições para a indústria canadense
O acordo alcançado entre Canadá e China representa uma mudança fundamental na estratégia comercial canadense. Pela primeira vez, empresas chinesas como BYD e Chery terão a oportunidade de montar veículos em território canadense, não apenas vendê-los como importações. No entanto, esta abertura vem acompanhada de salvaguardas significativas desenhadas para proteger a soberania tecnológica e os interesses industriais do Canadá.
As restrições incluem o requisito de utilizar software canadense nos veículos fabricados localmente e a obrigação de estabelecer empresas conjuntas com parceiros nacionais. A BlackBerry, a empresa canadense especializada em software automotivo, posiciona-se como um ator-chave neste novo quadro regulatório. Joly reuniu-se durante a sua viagem a Pequim com executivos da BYD, Chery e da empresa canadense de autopeças Magna International, estabelecendo as bases para futuras colaborações.
O governo revisará o acordo dentro de três anos para verificar se as empresas chinesas cumprem os seus compromissos de investimento significativo no setor automotivo canadense. Além disso, há um requisito gradual que obriga a preencher uma quota crescente com veículos de preço igual ou inferior a C$35 mil (aproximadamente USD 25.155), uma estipulação que favorece especialmente os fabricantes chineses de menor custo, melhorando a acessibilidade para os consumidores canadianos.
Paralelamente, a China comprometeu-se a reduzir tarifas sobre produtos agrícolas canadianos e a permitir que cidadãos canadianos viajem sem visto, ampliando assim os benefícios do acordo para além do setor automotivo.
Reposicionando o Canadá no mercado automotivo global
A estratégia do Canadá responde a uma realidade desconfortável: depender exclusivamente do mercado americano já não é viável. Antes de 2024, quando o Canadá impôs uma tarifa de 100 por cento a veículos elétricos fabricados na China, a maioria das importações vinha da Tesla. Agora, com o novo quadro regulatório, a quota poderá diversificar-se significativamente.
O Canadá possui uma vantagem competitiva que muitos países invejam: acordos de livre comércio com múltiplas regiões, incluindo Europa e Ásia. O funcionário governamental enfatizou que, a longo prazo, a verdadeira estratégia para contrabalançar o protecionismo dos Estados Unidos seria ligar os mercados do Canadá, Europa e Ásia num ambiente de tarifas baixas. O acordo com a China representa um passo crucial nessa direção, criando uma ponte comercial para mercados alternativos.
É relevante que o governo canadense tenha notificado previamente o Representante Comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, sobre estas negociações. Trump respondeu favoravelmente, indicando que não lhe preocupava o acordo: “Está bem, isso é o que devia estar a fazer. Se se puder chegar a um acordo com a China, deve ser feito.” Esta bênção tácita reduz a incerteza sobre a revisão do Acordo entre Estados Unidos, México e Canadá, que se aproxima.
A visão do Canadá é clara: transformar-se de um produtor dependente num ator estratégico na indústria automotiva global. Com o acordo Carney-Xi, o país abre uma nova fronteira de possibilidades industriais, mantendo salvaguardas que protejam a sua soberania tecnológica e os seus trabalhadores. Os próximos três anos serão decisivos para determinar se esta aposta audaz posiciona o Canadá como um centro de inovação automotiva do século XXI.
Ver original
Esta página pode conter conteúdos de terceiros, que são fornecidos apenas para fins informativos (sem representações/garantias) e não devem ser considerados como uma aprovação dos seus pontos de vista pela Gate, nem como aconselhamento financeiro ou profissional. Consulte a Declaração de exoneração de responsabilidade para obter mais informações.
A estratégia automotiva do Canadá: Novo pacto com a China sob condições rigorosas
O Canadá enfrenta um momento crítico na sua indústria automotiva. Com as tarifas americanas a pressionar os fabricantes e a ameaça de que as operações sejam transferidas para o sul, o governo do primeiro-ministro Mark Carney tomou uma decisão audaz: abrir as portas do mercado automotivo canadense aos fabricantes chineses, mas com garantias que protejam os interesses nacionais. Em fevereiro passado, Carney reuniu-se com o presidente chinês Xi Jinping em Pequim e anunciou um acordo comercial que flexibilizou significativamente as tarifas sobre os veículos elétricos chineses, permitindo a entrada de aproximadamente 49 mil unidades com uma tarifa reduzida de 6 por cento.
Por que o Canadá precisava repensar a sua política automotiva?
A indústria automotiva no Canadá enfrenta pressões sem precedentes. No ano passado, foram vendidos 1,9 milhões de veículos novos no país, mas a participação de mercado das fábricas americanas diminuiu notavelmente desde que Trump lançou a sua guerra comercial. A General Motors fechou uma fábrica em Ontário e ameaçou reduzir operações noutra, enquanto a Stellantis cancelou planos para fabricar Jeep perto de Toronto, decidindo transferir essa produção para Illinois.
Atualmente, apenas cinco empresas mantêm fábricas de montagem no Canadá: GM, Stellantis, Ford Motor, Toyota e Honda. A maior parte da sua produção destina-se aos mercados americanos, tornando o Canadá vulnerável às políticas protecionistas de Washington. Fabricantes importantes como Tesla, Nissan e Kia nem sequer produzem território canadense, abastecendo-se completamente de fábricas nos Estados Unidos e outros países.
A ministra da Indústria, Melanie Joly, apresentou uma estratégia abrangente que visa travar a perda de empregos e atrair novos investimentos na manufatura. Esta política não só aborda o acesso ao mercado para produtores existentes, mas também contempla mandatos de venda de veículos elétricos e incentivos para consumidores, criando um ambiente mais favorável à inovação automotiva no país.
O acordo Carney-Xi: Oportunidade e restrições para a indústria canadense
O acordo alcançado entre Canadá e China representa uma mudança fundamental na estratégia comercial canadense. Pela primeira vez, empresas chinesas como BYD e Chery terão a oportunidade de montar veículos em território canadense, não apenas vendê-los como importações. No entanto, esta abertura vem acompanhada de salvaguardas significativas desenhadas para proteger a soberania tecnológica e os interesses industriais do Canadá.
As restrições incluem o requisito de utilizar software canadense nos veículos fabricados localmente e a obrigação de estabelecer empresas conjuntas com parceiros nacionais. A BlackBerry, a empresa canadense especializada em software automotivo, posiciona-se como um ator-chave neste novo quadro regulatório. Joly reuniu-se durante a sua viagem a Pequim com executivos da BYD, Chery e da empresa canadense de autopeças Magna International, estabelecendo as bases para futuras colaborações.
O governo revisará o acordo dentro de três anos para verificar se as empresas chinesas cumprem os seus compromissos de investimento significativo no setor automotivo canadense. Além disso, há um requisito gradual que obriga a preencher uma quota crescente com veículos de preço igual ou inferior a C$35 mil (aproximadamente USD 25.155), uma estipulação que favorece especialmente os fabricantes chineses de menor custo, melhorando a acessibilidade para os consumidores canadianos.
Paralelamente, a China comprometeu-se a reduzir tarifas sobre produtos agrícolas canadianos e a permitir que cidadãos canadianos viajem sem visto, ampliando assim os benefícios do acordo para além do setor automotivo.
Reposicionando o Canadá no mercado automotivo global
A estratégia do Canadá responde a uma realidade desconfortável: depender exclusivamente do mercado americano já não é viável. Antes de 2024, quando o Canadá impôs uma tarifa de 100 por cento a veículos elétricos fabricados na China, a maioria das importações vinha da Tesla. Agora, com o novo quadro regulatório, a quota poderá diversificar-se significativamente.
O Canadá possui uma vantagem competitiva que muitos países invejam: acordos de livre comércio com múltiplas regiões, incluindo Europa e Ásia. O funcionário governamental enfatizou que, a longo prazo, a verdadeira estratégia para contrabalançar o protecionismo dos Estados Unidos seria ligar os mercados do Canadá, Europa e Ásia num ambiente de tarifas baixas. O acordo com a China representa um passo crucial nessa direção, criando uma ponte comercial para mercados alternativos.
É relevante que o governo canadense tenha notificado previamente o Representante Comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, sobre estas negociações. Trump respondeu favoravelmente, indicando que não lhe preocupava o acordo: “Está bem, isso é o que devia estar a fazer. Se se puder chegar a um acordo com a China, deve ser feito.” Esta bênção tácita reduz a incerteza sobre a revisão do Acordo entre Estados Unidos, México e Canadá, que se aproxima.
A visão do Canadá é clara: transformar-se de um produtor dependente num ator estratégico na indústria automotiva global. Com o acordo Carney-Xi, o país abre uma nova fronteira de possibilidades industriais, mantendo salvaguardas que protejam a sua soberania tecnológica e os seus trabalhadores. Os próximos três anos serão decisivos para determinar se esta aposta audaz posiciona o Canadá como um centro de inovação automotiva do século XXI.