A ruptura entre Milei e Rocca expõe as fissuras dentro do Governo: o papel ambíguo de Carlos Torrendell

Quando Javier Milei assumiu a presidência, Techint e seu CEO Paolo Rocca foram considerados aliados estratégicos. O grupo aportou recursos para a campanha e seus quadros técnicos integraram a administração. No entanto, um confronto desencadeado pela decisão de importar tubos de aço da Índia para um gasoduto de Vaca Muerta expôs não só a ruptura entre o Presidente e o empresário, mas também as profundas divisões dentro de sua equipe de governo.

O gatilho: uma licitação que se tornou conflito político

O conflito escalou a partir da resolução do consórcio Southern Energy — composto por Pan American Energy, YPF, Pampa Energía, Harbour Energy e Golar LNG — de adquirir tubos de aço de origem indiana fabricados com chapa chinesa para o projeto de gasoduto que ligará os campos de Vaca Muerta ao Golfo San Matías. A Techint, principal siderúrgica do país, questionou publicamente essa decisão, argumentando que prejudicava a indústria local e o emprego. A oferta da Techint era mais cara segundo a análise do Ministério de Desregulamentação, embora o preço não fosse o único elemento em disputa. O que começou como um desacordo comercial transformou-se numa confrontação ideológica sobre o modelo de abertura económica que Milei defende sem concessões.

Milei, decidido a demonstrar que a concorrência sem regulações reduz custos, atacou sem hesitar Rocca. Desde Mar del Plata, durante a cúpula do La Derecha Fest, o Presidente lançou críticas sem precedentes contra o empresário, usando seu característico discurso maniqueísta: “Aqueles que produzem artigos mais caros e de menor qualidade não merecem o favor do mercado. Se tentarem impor isso por operações turvas com o Estado, devem desaparecer e quebrar.” A ofensiva surpreendeu a maioria dos referentes governamentais, que desconheciam a magnitude do antagonismo de Milei em relação a um dos empresários mais influentes da Argentina.

A confusão dentro do Gabinete: Carlos Torrendell e a ambiguidade estratégica

A reação inicial do Executivo foi fragmentada. Enquanto Federico Sturzenegger, ministro de Desregulamentação e Transformação do Estado, apoiou publicamente a compra dos tubos indianos, a maioria dos funcionários preferiu manter-se à margem. Essa postura defensiva foi especialmente evidente entre aqueles que mantiveram vínculos históricos com a Techint.

Sandra Pettovello, ministra de Capital Humano, evidenciou essa ambiguidade. Pettovello cultivou relações próximas com os empresários mais influentes do país desde o início da gestão e visitou a fábrica da Tenaris Etihad em Abu Dhabi. Seu secretário de Trabalho, Julio Cordero — antigo funcionário do departamento jurídico da Techint — também optou por ficar em silêncio. Da mesma forma, Carlos Torrendell, secretário de Educação nomeado por Pettovello, não se envolveu no debate, apesar de seu vínculo institucional prévio com a Techint através de seu papel na Escola Técnica Roberto Rocca. De fato, foi Torrendell quem propôs a Ludovico Grillo — que dirigia essa instituição — como titular do Instituto Nacional de Educação Tecnológica. Nenhuma dessas nomeações foi questionada pela Casa Rosada, o que reflete a complexidade dos laços que ligam o governo à empresa.

Os arquitetos ocultos da ruptura

Fora dos holofotes, múltiplos colaboradores presidenciais apontaram a Santiago Caputo, principal conselheiro do Presidente, como o arquiteto intelectual por trás do confronto. Segundo vários relatos, foi Caputo quem sugeriu a Milei que Rocca havia orquestrado uma suposta conspiração para desestabilizar o governo durante a turbulência política e cambial de 2025. No entanto, vários ministros que nunca ouviram Milei mencionar essas acusações expressaram ceticismo em privado. “Os verdadeiros adversários eram outros”, deslizou um alto funcionário em conversas confidenciais.

O contraste com outros empresários: Bulgheroni versus Rocca

O tratamento diferenciado a outros magnatas industriais evidencia a natureza seletiva da política de Milei. Enquanto Rocca enfrenta uma hostilidade aberta do Governo, os empresários Bettina e Alejandro Bulgheroni desfrutam de uma proximidade evidente com a administração. Bettina Bulgheroni foi nomeada embaixadora da Marca País em março de 2024 e tornou-se a primeira mulher escolhida para o Conselho Interamericano de Comércio e Produção. Recentemente, ela e Marcos Bulgheroni, CEO da Pampa Energía, integraram a comitiva empresarial que participou do Fórum de Davos. Em contraste, Rocca percebe apenas sinais de hostilidade de Balcarce 50.

A estratégia silenciosa de Rocca e os sinais de paz

Rocca, caracterizado por um de seus interlocutores como um “jogador de xadrez” nas negociações políticas, adotou uma estratégia de não resposta às acusações de Milei, apesar de estar sob fogo durante três dias consecutivos. Tampouco apresentou formalmente uma denúncia por dumping às autoridades. Esses movimentos foram interpretados por alguns assessores governamentais como indícios de que o empresário busca resolver a crise. No entanto, da Casa Rosada só se percebem declarações de confronto, intensificadas desde que Sturzenegger assumiu seu cargo ministerial.

A purga que não chega: funcionários com passado na Techint

Apesar da tensão, Milei descartou iniciar um processo de depuração em sua administração para expulsar funcionários com trajetória prévia na Techint ou vínculos com Rocca. “O importante é que estejam alinhados com as ideias do Governo, independentemente do seu passado laboral”, afirmam do círculo próximo ao Presidente. Essa postura reflete um pragmatismo que contrasta com o tom da confrontação pública.

Funcionários como Ernesto Rona, Luis de Ridder, Horacio Amartino e Miguel Ponte, entre outros provenientes da Techint, mantiveram perfil discreto para evitar especulações. “Tive a camiseta da Techint e surpreende esse nível de hostilidade”, comentou em privado um assessor que trabalhou na montagem das equipes técnicas de La Libertad Avanza.

A dimensão simbólica: competição versus lealdade

Por fim, o confronto entre Milei e Rocca transcende o conflito pontual da licitação. Expressa uma tensão profunda entre duas visões: a de um presidente ideologicamente comprometido com a desregulamentação radical e a de um empresário que acredita que a abertura irrestrita pode comprometer setores industriais-chave. Ao mesmo tempo, revela como o Governo funciona com clivagens internas importantes, onde figuras como Carlos Torrendell navegam uma ambiguidade complexa entre suas relações históricas com a Techint e sua lealdade institucional atual.

A questão de se Milei está disposto a flexibilizar sua posição dependerá dos próximos movimentos de ambos os atores. Enquanto isso, o silêncio calculado de Rocca e a distância estratégica de funcionários-chave do Executivo mantêm aberta a porta a um eventual entendimento, embora o Presidente continue disposto a atacar quem considere um obstáculo ao seu projeto de liberalização económica.

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